domingo, 6 de abril de 2025

interligações invisíveis

Antes não havia nada.
Não havia moções interiores,
só sensações desérticas e desenraízadas.

Agora cresce uma selva
dentro de mim,
onde tudo se move.

Exotismo desenfreado.

Sinto-te tanto
que não suporto ver-te sem sorrir.

Endoidecimento até à loucura de um possível suicídio.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

mil e uma noites

Gostava de ter mil e uma maneiras 
para te conquistar, 
mas só tenho uma — a minha maneira tosca 
de ser e de estar.

domingo, 30 de março de 2025

o desvario do vazio

 Pecado é agir contra o que nos é próprio. É uma ruptura de equilíbrio.
Cesare Pavese


A anulação do desejo é um caso sério. É mais do que um pecado ou um desequilíbrio. É um acto de esvaziamento do Ser até ao suicídio.

segunda-feira, 24 de março de 2025

fina tristeza

Imparável sede:
onda sobre onda
(

esta amortalhando a anterior 
)
o mar é um enterro.
“O desembarque das ondas”
Daniel Jonas



Há uma fina tristeza que se evapora da tremulina primaveril. Está um dia de sol, com poucas nuvens, os pássaros cantam, as pessoas correm de um lado para o outro, como é habitual às segundas. Está tudo certo. Juro que está mesmo tudo certo. E eu estou feliz. Juro que estou mesmo feliz. No entanto, sinto um ligeiro desconforto, como se a minha postura de ser e de estar na vida ainda não fosse a mais rectilínea possível. Porque é que sinto uma imparável sede de uma solidão acompanhada? 

terça-feira, 18 de março de 2025

Entrada de um diário de fumo

 - A sinceridade, num diário, não consiste em dizer toda a verdade mas em não dizer mentiras.
Fernanda de Castro

Ontem deixaste de ser o meu Amor. Transformaste-te num homem normal, sem contornos poéticos. Pelos vistos, era a poesia que te elevava... e eu, como ávida leitora, li o teu livro até ao fim, apesar do desencanto a meio.

Ontem, naturalmente, deixaste de ser. Tornaste-te cinza, sem crematórios possíveis, e disperso, foste com o vento. Talvez, esse foi sempre o teu destino. Seres rescaldo (com ela), em vez de incêndio (comigo).

terça-feira, 11 de março de 2025

fogo diminuto

É deprimente aceder ao fogo. 
Atear uma fogueira apagada. Provocar incêndios proibidos. Ver labaredas pequenas e receosas. 

É tão deprimente ver fogo que não arde e não vira queimada.