Está tudo escuro. De repente, entras na sala e acendes-me. Não queres a luz branca do candeeiro de cima. Queres a luz amarela para aquecer o teu seio familiar há muito glaciar. Sentas-te e começas a declamar poemas de António Ramos Rosa ou de Pedro, lembrando Inês. Ninguém entende o Vagar da Poesia, portanto sentes-te só, enquanto continuam a palrar na cozinha. Na tentativa vã de os chamares, pegas numa revista cor-de-rosa e gritas OS CABEÇALHOS ESTRIDENTES DO ALHEIO. Os dizeres ao longe evocam o prosaico. Primeiro, o Ulisses mais novo, depois, o mais velho, e por fim, a majestosa Penélope. As perguntas que te prendem pedem respostas sórdidas e artificiais. Tentas responder, esforçando a voz poética e vagarosa, mas ela não alcança corações moucos.
fragmentos emocionais
"(é sempre tão longo caminho um fragmento)," Tolentino Mendonça
terça-feira, 13 de outubro de 2026
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
a vulnerabilidade do cal
A rua é estreita e de sentido único. Os paralelos entorpecem o chão e entortam os pés. A dificuldade em caminhar faz-me tombar contra as paredes. Lá no fundo, estás tu. Perfeito desconhecido, cujo olhar não reconheço, embora sinta que a íris imaginada fosse íntima e familiar. Como irei passar agora? Tenho pressa de ir para o outro lado, mas a rua obriga-me à proximidade, e tenho aversão a isso, por seres completamente estranho; estranhamente próximo, o que é pior. Avanço com as mãos trêmulas no cal, enquanto tu ironizas a minha presença. Fujo de ti e da estranheza que convocas. No momento em que os nossos olhares se cruzam, eu desmaio e caio. Tu dás-me a mão, só que prefiro ficar estendida sobre a calçada fria e suja do que segurar num enigma. Aguardas impacientemente. Fecho os olhos e morro. Tu viras as costas como o estranho que sempre foste. E foi por isso mesmo que não te dei a mão, porque sempre soube que, rapidamente, irias largar e afirmar-te na tua condição humana de estrangeiro.
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
o luto de uma flor de lótus
Coração empedernido pelo sentido útil do desamor prosaico e do fingimento poético.
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
domingo, 27 de setembro de 2026
a última meada
é a mesma que hoje puxa o último novelo de meada.
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
terça-feira, 22 de setembro de 2026
apocalipse em Delfos
Se não se avistam oásis no deserto, então é porque a selva nunca existiu.