sábado, 31 de outubro de 2026

SOLidão

"A minha solidão é um lugar ardente."
Diogo Divagações, Sequência - só (2026) 


Há algo de profundamente solar na SOLidão. O feixe de luz do seu prefixo ilumina vogais e consoantes que traçam, por sua vez, órbitas literárias infinitas. As voltas ao Mundo de Júlio Verne e Ferreira de Castro inspiraram-se no excesso das viagens e multidões, mas exigiram vagar e silêncio para a sua escrita — processo criativo de (auto)análise, no qual o Eu se redefine perante um Outro plural. A folha em branco, deserto intelectual onde a sarça ardente aguarda o seu momento de revelação, converte-se assim num lugar metafísico de criação iminente.

Como fogo que arde sem se ver, a SOLidão traduz-se num manifesto para o Amor e para a Liberdade face ao vazio existencial; uma circunstância ou uma sequência – só que, ao ser inteiramente preenchida pela nossa essência, torna-se no eclipse vital para redescobrir as fases lunares da Humanidade.

 

Este texto foi escrito para o lançamento de Sequência - só de Diogo Divagações, na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira, a 30 de outubro de 2026, às 21h30.




quinta-feira, 29 de outubro de 2026

premissas celestiais

[...] as melhores estrelas do céu efetuam 
idílicas reuniões em noites como esta. 
Ferreira de Castro

Duas estrelas colidiram e só lhes resta domesticar o brilho.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

desconexão

Palavras desgovernadas
embatem contra um muro silente. 

O mistério só é belo,
quando é poético.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

o cancelamento da Poesia

Apetecia-me tanto não comer poesia hoje.
Raquel Rubus 

Porque me fizeste amar os frutos poéticos, se agora não os posso beber?

sábado, 17 de outubro de 2026

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Breve nota sobre "Emigrantes" de Ferreira de Castro

Emigrantes de Ferreira de Castro é, para mim, o livro mais marcante da literatura portuguesa. Primeiro pelo seu fôlego literário que renovou o romance português do século XX; e segundo pela sua estrondosa atualidade que o transporta para o nosso século, como se fosse a primeira vez, depois de quase 100 anos de vida. Emigrantes é um romance “eviterno”, e sempre o será, pois o drama humano contido nas suas 242 páginas não é só do protagonista Manuel da Bouça e da sua família; é de todos, e foi também, e principalmente, de quem o “escreviveu”, neste caso, Ferreira de Castro.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

candeeiro lúcido

Está tudo escuro. De repente, entras na sala e acendes-me. Não queres a luz branca do candeeiro de cima. Queres a luz amarela para aquecer o teu seio familiar há muito glaciar. Sentas-te e começas a declamar poemas de António Ramos Rosa ou de Pedro, lembrando Inês. Ninguém entende o Vagar da Poesia, portanto sentes-te só, enquanto continuam a palrar na cozinha. Na tentativa vã de os chamares, pegas numa revista cor-de-rosa e gritas OS CABEÇALHOS ESTRIDENTES DO ALHEIO. Os dizeres ao longe evocam o prosaico. Primeiro, o Ulisses mais novo, depois, o mais velho, e por fim, a majestosa Penélope. As perguntas que te prendem pedem respostas sórdidas e artificiais. Tentas responder, esforçando a voz poética e vagarosa, mas ela não alcança corações moucos.