domingo, 18 de fevereiro de 2024

saber olhar para o desértico

Saber olhar para o que está entre o ser e o não ser, que é um tempo e um espaço intermédios e transitórios, é vertiginoso. Se olhamos para baixo, vemos um poço infinito e escuro. Se olhamos para cima, vemos o deslimite e o brilho ofuscante do céu. Tanto no claro como no escuro, a cegueira é permanente.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

odisseias interiores

Para viajar basta existir.
Fernando Pessoa 

Não importa percorrermos muitos quilómetros, nem viajar o mais longe possível. Importa sim, a forma como viajamos. Até podemos ir ao café da esquina e sentirmo-nos no estrangeiro. Viajar com um propósito verdadeiramente pensado e sentido é das viagens mais significativas e longas que algum dia podemos fazer. Podemos viajar poucos quilómetros no exterior, mas muitos quilómetros no nosso interior infinito e onírico. 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

deixar de ter quereres

A vida é como uma flor. Grande ou pequena, cada dia cai uma pétala de felicidade, até ficar desnudada de tristeza. Antes de perecer, a flor fica murcha e seca. Fica petrificada de podridão; hirta de agonia. De que vale um ramo de flores, se elas vão entrar em putrefação? O cheiro, a náusea... Nada vale a pena, quando nos deparamos com a finitude avassaladora da vida.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

eterno agradecimento a Ferreira de Castro

Estou e estarei imensamente grata a Ferreira de Castro. 

Ele e a sua Literatura têm-me dado muito: pessoas, experiências, lugares, viagens... Nunca planeei dar a volta ao Mundo desta forma, mas é por isso mesmo que esta inesperada e espontânea forma, tem sido, até agora, a melhor. 

Pensar através do que Ferreira de Castro escreveu, abre-me à vida como um lírio forte e delicado, que resiste e persiste, face à tempestade da "agradável desgraça do nosso ser".

domingo, 31 de dezembro de 2023

maleitas da vida

Estar doente é sentir todos os pesos do Mundo. É sentir todos os pecados e todas as enfermidades anteriores. A carne lateja e a alma clama por um corpo novo. Nada adianta. A finitude da vida é demasiado implacável para renovar a matéria. O seu destino é apodrecer no chão lamacento para depois se tornar húmus e, por fim, regenerar-se (numa outra coisa qualquer que não tem nada a ver com o que foi). 

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

a beleza da permanência

É tão belo, quando nos apercebemos que tudo está no seu devido lugar, apesar de tudo. Um sorriso rasga-se e o sol brilha, como nunca brilhou. Um sentimento de pura alegria e aceitação da vida, tal como ela é, invade os céus, em fogo de artifício, como se fosse o primeiro dia do resto da minha vida.

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

numerus vitae

Ter uma idade é toda uma questão numérica, sem significado, a não ser aquele que nos quantifica; que subtrai a vida e adiciona a morte. Executarmos uma tentativa de nos quantificarmos comparativamente é erróneo e só trará infortúnios, pois a vida de cada corpo físico e material é única e é isso que nos torna seres únicos. O facto de pouco ou nada sabermos acerca do antes da vida e do depois da morte causa-nos inquietação, insatisfação e desesperança, colocando-nos mais a fazer do que simplesmente a ser. Ansiosamente, enchemos a nossa vida de (a)fazeres, como tentativas de resposta a perguntas sem resposta; como tentativas para alcançar a imortalidade ou algo mais que nem nós próprios sabemos bem, só sentimos. É isto o sentido da vida, pelo menos da minha ótica. Se para outros não for, que assim seja. Antecipo-me em epitáfio: "Seja o que for / Será bom. / É tudo." (Daniel Faria).