segunda-feira, 12 de outubro de 2026

a vulnerabilidade do cal

A rua é estreita e de sentido único. Os paralelos entorpecem o chão e entortam os pés. A dificuldade em caminhar faz-me tombar contra as paredes. Lá no fundo, estás tu. Perfeito desconhecido, cujo olhar não reconheço, embora sinta que a íris imaginada fosse íntima e familiar. Como irei passar agora? Tenho pressa de ir para o outro lado, mas a rua obriga-me à proximidade, e tenho aversão a isso, por seres completamente estranho; estranhamente próximo, o que é pior. Avanço com as mãos trêmulas no cal, enquanto tu ironizas a minha presença. Fujo de ti e da estranheza que convocas. No momento em que os nossos olhares se cruzam, eu desmaio e caio. Tu dás-me a mão, só que prefiro ficar estendida sobre a calçada fria e suja do que segurar num enigma. Aguardas impacientemente. Fecho os olhos e morro. Tu viras as costas como o estranho que sempre foste. E foi por isso mesmo que não te dei a mão, porque sempre soube que, rapidamente, irias largar e afirmar-te na tua condição humana de estrangeiro.

Sem comentários:

Enviar um comentário