terça-feira, 13 de outubro de 2026

candeeiro lúcido

Está tudo escuro. De repente, entras na sala e acendes-me. Não queres a luz branca do candeeiro de cima. Queres a luz amarela para aquecer o teu seio familiar há muito glaciar. Sentas-te e começas a declamar poemas de António Ramos Rosa ou de Pedro, lembrando Inês. Ninguém entende o Vagar da Poesia, portanto sentes-te só, enquanto continuam a palrar na cozinha. Na tentativa vã de os chamares, pegas numa revista cor-de-rosa e gritas OS CABEÇALHOS ESTRIDENTES DO ALHEIO. Os dizeres ao longe evocam o prosaico. Primeiro, o Ulisses mais novo, depois, o mais velho, e por fim, a majestosa Penélope. As perguntas que te prendem pedem respostas sórdidas e artificiais. Tentas responder, esforçando a voz poética e vagarosa, mas ela não alcança corações moucos.

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