domingo, 6 de agosto de 2023

balões de água fulminantes

Sou triste.
Sempre serei triste.

A tristeza é inata ao meu passado,
portanto estará sempre comigo;
far-se-à presente de formas subtis
nos momentos mais inesperados.

O inesperado é um momento sem tempo
que choca com dois tempos:
objetivo/consciente
subjetivo/inconsciente
Não há tempo no tempo psicológico. 

O cuco do relógio já não canta!
É necessário puxar os pesos 
para dar corda ao relógio
e para alegrar o cuco.
CUCU

As ansiedades são elásticas 
e os ventos do desespero sopram,
enchendo balões que estouram ou rebentam,
em sublime efusão.
PUM

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Cenas do novo quotidiano

Quatro turistas, um telemóvel e quatro momentos fotográficos.

(quatro turistas chegam a uma praça)

Primeira cena: uma turista tira uma foto, a outros três turistas, a caminhar, de costas.
Segunda cena: a mesma turista tira outra foto, aos mesmos outros três turistas, agora parados, de frente.
Terceira cena: ainda a mesma turista decide tirar uma selfie, com os mesmos outros três turistas, todos juntos, parados, de frente.
Quarta cena: não descansada, ainda a mesma turista importuna outra turista para tirar uma 'última' foto, aos quatro turistas, todos juntos, parados, de frente. 
Quinta cena: ainda a mesma turista aproveita para posar, inclinando a cabeça, com um sorriso forçado, enquanto ostenta a sua mala (verdadeira ou falsa) da Louis Vuitton, colocando-a propositadamente à frente da perna direita.
Sexta cena: a turista importunada devolve o telemóvel à mesma turista que segue caminho, juntamente com os outros três turistas, com a cara enfiada no ecrã para ver e mostrar o que não viveu, continuando assim a não viver.

Estas cenas demoraram menos de cinco minutos, mas deixaram-me a pensar horas. 
Como é possível existir tanta alienação? (no pior sentido da palavra)
Como e para onde caminharemos assim? (de cabisbaixo e vidrados em ecrãs)

A vivência do fugaz per se via uma linguagem tecnológica desumaniza-nos. Torna-nos estranhos, ridículos, perdidos e vazios. Retira-nos o espírito crítico, a criatividade e a identidade. Impele-nos a uma vivência irreal e infeliz.

De repente, senti um calafrio. Refleti e percebi que estava diante do sensacionismo de Álvaro de Campos, em plena distorção/destruição: "Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!".

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Ao Ferreira de Castro que ainda hoje nos habita!

Tudo o que escreveste, toca a profunda emoção do sentir. 

De corpo e alma, justa e humilde, olhaste e escutaste o outro como quem contempla a natureza. Como duas árvores que crescem lado a lado, tendo inevitavelmente de permanecer frente a frente.

A tua luta era pela verdadeira vida e pela liberdade.

Hoje, diante do teu sepulcro, contemplo a verdadeira vida das veredas, com grande emoção, e agradeço-te pela perpetuação da luta pela liberdade, ainda presente nas tuas palavras e ainda tão necessária.



terça-feira, 20 de junho de 2023

a espiritualidade das árvores

As árvores são os seres mais espirituais que conheço. Profundamente enraizadas na terra e absolutamente erguidas para o céu. Em vida, são os pulmões da Terra. Em morte, são os livros do Homem. Respirar e ler deveriam ser verbos sinónimos, sempre conjugados no gerúndio. Ler deveria ser tão natural como respirar e o ato de respirar deveria corresponder ao virar das páginas.




domingo, 11 de junho de 2023

paragens

O fatal primeiro beijo sobre os lábios um do outro.
Mário Máximo In Oração Pagã (2001)

Uma paragem é um curto ou longo momento de pausa e a sua verdadeira materialização acontece como paragem de autocarro. Lá, quem espera, decide a hora e o destino exatos, deambulando entre tempos e espaços (ir)reais. Ir ou não ir, eis a questão! 

Quem espera sempre alcança, já diz o ditado; mas o que é que realmente esperamos, quando estamos numa paragem de autocarro? Esperamos única e exclusivamente chegar ao destino a tempo e horas? Esperamos um abraço? Ou esperamos o beijo? O beijo que nos vai salvar da miséria humana e fazer transcender...

Por vezes, uma paragem de autocarro não é só uma paragem de autocarro. Pode ser também um lugar-comum para amores (des)encontrados, paixões fugazes ou amantes saudosos, onde enfrentam dilemas ou fazem juras para a eternidade. Um lugar de tudo ou nada.

Outras vezes, uma paragem de autocarro é só uma paragem de autocarro; um (não-)lugar de todos e de ninguém.

terça-feira, 16 de maio de 2023

superficialidades

Caminhamos sobre superfícies superficiais e supérfluas. Caminhamos não; corremos. Corremos sem tropeçar. Quem tropeçar incomoda, pois o ritmo frenético e ininterrupto não contempla desvios nem pedras na calçada. Caminhamos por cima delas, como se fossem planas ou como se não existissem. Ignoramos, menosprezamos, recusamos e renunciamos a sua existência. De cabisbaixo e olhos fixos nos ecrãs móveis, para onde caminhamos? Qual a nossa direção numa sociedade que vive além das suas possibilidades e...

                                            ... que não para!
                                            ... que não observa!
                                            ... que não contempla!
... que não questiona!
                                            ... que não pensa!

Que sobrevive e não vive...

quinta-feira, 11 de maio de 2023

almas gémeas

almas gémeas:
espuma branca sobre areia molhada,
vulcão em erupção,
meteoritos e buracos negros,
sol, chuva e um arco-íris.

Estrelas cadentes alumiam o céu,
quando as almas gémeas se encontram.

Toque de Midas no infinito,
quando as almas gémeas se reconhecem.