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sexta-feira, 10 de abril de 2026

paralisia do peito

Enterrem o meu coração
à parte.
É frágil.
Abbas Kiarostami


A falta de coragem faz cumprir destinos sem folêgo poético.
O átrio que, delicadamente, reservei para o nosso Amor fecha-se na promessa incumprida d'A Volta ao Mundo. Eu que sempre esperei por ti, agora que chegaste, é como se nunca tivesses chegado.

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

poesia da lua cheia

estrela cadente
rasgas os meus cabelos
como a lua
rasga as águas calmas da ria

cometa meteórico
despenhas nos meus lábios
como o asteróide
despenha na cratera de um vulcão em erupção

supernova cósmica
explodes no meu corpo celeste
como a aurora boreal
explode no buraco negro

lua cheia
repousas no canto do olhar dele
como a ursa maior
repousa no céu noturno

domingo, 11 de junho de 2023

paragens

O fatal primeiro beijo sobre os lábios um do outro.
Mário Máximo In Oração Pagã (2001)

Uma paragem é um curto ou longo momento de pausa e a sua verdadeira materialização acontece como paragem de autocarro. Lá, quem espera, decide a hora e o destino exatos, deambulando entre tempos e espaços (ir)reais. Ir ou não ir, eis a questão! 

Quem espera sempre alcança, já diz o ditado; mas o que é que realmente esperamos, quando estamos numa paragem de autocarro? Esperamos única e exclusivamente chegar ao destino a tempo e horas? Esperamos um abraço? Ou esperamos o beijo? O beijo que nos vai salvar da miséria humana e fazer transcender...

Por vezes, uma paragem de autocarro não é só uma paragem de autocarro. Pode ser também um lugar-comum para amores (des)encontrados, paixões fugazes ou amantes saudosos, onde enfrentam dilemas ou fazem juras para a eternidade. Um lugar de tudo ou nada.

Outras vezes, uma paragem de autocarro é só uma paragem de autocarro; um (não-)lugar de todos e de ninguém.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

(des)fragmentação emocional

Corpo meu que vagueia
Fizeste de mim um dado
E lançaste-me no jogo da vida
Que só tem uma ida
Sim, tu foste um actor
Que encenou sem pudor
Um falso amor
Que agora sinto com dor
A inexistência constante de algo
És tu que fomentas 
Todo o romantismo vivente em mim
Tudo parece poesia
Só que apenas é magia
Flores murchas são atiradas sob o corpo que jaz
Sozinha como nunca a solidão esteve
Porque amar é pelo teu olhar deambular
Porque me deixas assim?
Sem início nem fim
Confusão de emoções
Sinestesias e orações
Amar como se faltasse o ar
Amor com ardor
Páginas de amor serão sempre páginas de dor
E se eu morrer agora
Vais ter desejado essa distância?
Que horror desejar o que é morto
E viver desencantada com o que é vivo
A perfeição e utopia numa só palavra – sonhar
Os instintos são atirados como flechas
Quase como se esquartejassem o próprio sentimento
Quando eu tiver de acontecer
Apenas irei continuar a ver o mar e a sentir a sua brisa
(outra vez)



quarta-feira, 16 de junho de 2021

semtido

Eu sei como é quando não se é
e sei como é quando se é.
Nada melhor do que conjugar o ser ou estar no presente,
todos os outros tempos verbais conspurcam as pessoas no singular ou no plural.
A dicotomia serve-se bem fria,
sem entradas nem copos de vinho para entorpecer.
Nada dura para sempre (nem eu quero)!
Por mim, acabava tudo já,
tal como este pseudo-poema, 
que brota sem qualquer sentido...
Mas o que é a poesia senão o encontrar sentido na falta de?

segunda-feira, 24 de maio de 2021

brumas

Oh, dia de névoa!
Some-te do meu alcance,
Esconde-te do tédio terreno,
Desvenda a claridade divida e sagrada.
Quero deslindar os novelos de sombras
Que se escondem no infinito junco.

Ventos te soprem e te levem!
Estou pronta para olhar o sol de frente.

sábado, 22 de maio de 2021

Para quê?

Para quê poesias e crepúsculos?
Para quê paixões e promessas?
Para quê pensamentos e contemplações?
Para quê? Para quem? Porquê?
A nova idade dos porquês irrompeu pela aurora boreal.
Abram as garrafas! Chamem Dionísio!
Vénus morreu e o banquete insano alvoreceu agora mesmo.

segunda-feira, 15 de março de 2021

trajetos (des)encontrados

E assim vai a vida vida...

Seguimos em frente,

Voltamos atrás,

Viramos à direita ou à esquerda,

Paramos no STOP.

Entramos em contramão ou em sentidos proibidos,

Estacionamos em ruas sem saída.

Não sabemos direcções nem destinos finais.

Cometemos infrações,

Somos julgados,

Porém seguimos.


Não temos mapas,

Só intuições efémeras que nos guiam por atalhos, trilhos ou avenidas.

Oh! Como eu gosto das avenidas de passeios longos, largos e floridos...

De gentes de vários nomes e alcunhas,

Cujas caras sorriem simplesmente.

Oh! Como eu gosto de sorrisos sem interesses...

Sinceros e belos.

Como eu. Como tu. Como nós.



sábado, 13 de março de 2021

Crítica literária do meu primeiro livro por Altino Pinheiro

    "No meio de uma pandemia global uma rapariga é levada para um lugar misterioso do seu coração para confrontar sem medos alguns desconfortos existenciais, muitos deles esquecidos ou ignorados pela maior parte de nós que agora emergem das profundezas através da “(des) Fragmentação Emocional”. Esta rapariga é Cristiana Oliveira que se revela com uma coragem invulgar e derrama neste pequeno, mas poderoso livro, uma amalgama de sentimentos e reflexões que não deixam o leitor indiferente.  

    Á medida que avançamos nas páginas, desfolhando o sentido de cada um destes sessenta e seis poemas, deparamo-nos com um certo apego biográfico, despertando em nós o desejo de descobrir, quem sabe, mensagens encriptadas que podem dizer mais sobre a autora e a genuinidade dos seus sentimentos. Frases como: “ proclamar ao mundo o quão infeliz e insatisfeita sou” ou “ irei dizimar todos os sentimentos e mais alguns.”, revelam frontalidade e autenticidade. Conclui-se com agrado que a obra é um verdadeiro desabafo poético, confrontando os seus amores e desamores, abandonos e revoltas humanas, cada vez mais comuns nestes tempos modernos. Cristiana não só toca na ferida atual da sociedade, como ainda a espreme até a dor suprema. Evitamos, pois, sentir porque temos máquinas que sentem por nós; “ o sentir é muito complexo, dá muitas dores de cabeça”, acrescenta.  

    Ainda numa leitura superficial desta (des)fragmentação emocional, deparamo-nos com um tema que paira sobre muitas páginas, ora de forma abstrata, ora de forma discreta e aterradora. É a derradeira noite da vida, a morte!  Evitamos sem que possamos fugir dela, é o que nos propõe a autora, mostrando-nos a morte não como a fuga ao que sentimos, mas abraçando todo e cada sentimento, porque morto ninguém sente, seja o que for. Desafia-nos a aceitar a morte como impulso para a constatação de nós mesmos, por vezes de forma cruel, mas bastante poética como é o caso de; “É tão boa esta pequena morte”. 

     O livro está repleto de questões, em quase todos os poemas existem perguntas e dezenas de pontos de interrogação. “O que achas deste correr?” , “Será que sou visível?”, “Gostas dos meus piercings?” A obra de Cristiana é afinal uma autointerrogação, uma análise psicológica ás nossas emoções, porque em cada pergunta existe uma reação afetiva, uma ânsia enorme de respostas que para bem dos nossos males nunca chegam. Quanto mais perguntas fazemos menos respostas temos, esta é a dicotomia do pensamento humano e sabemos bem que; “Pensar dói. E com o passar dos anos , dói cada vez mais.” 

    Há nestas 71 páginas uma revolução sincera, um grito de liberdade, fragmentos de uma mulher que finalmente, de forma clara e até harmoniosa, consegue (d)escrever-se em papel e dar um bocado de si ao mundo. Uma partilha corajosa, por vezes difícil, mas que expressa bem as suas vivencias de amor, de paixão, de revolta e dor, com um caracter rebelde e preguiçoso ao mesmo tempo, mas humano acima de tudo."

quarta-feira, 10 de março de 2021

Tempos verbais (ir)regulares

Nascemos, vivemos e morremos.
Sozinhos ou sozinhas,
Sempre.
Não se conta outra história,
Não se narram finais felizes,
Só no amor,
No verdadeiro amor.

Quem ama, 
Não deixa.
Acompanha e fica.

Fica.
Fica aqui e agora,
Fica mais perto e mais junto,
Fica sem deixar,
Fica sem intervalos ou recreios.

Ficar:
Verbo regular,
Cuja estrutura apresenta uma ligeira irregularidade.

Será essa a falha de quem não fica?

E não deveria ser regular,
Ficar quando se ama?

O verbo amar é regular e não tem irregularidades.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

labirinto mental

Chega o silêncio da noite

E as palavras não bastam.

Chega a azáfama do dia

E as palavras não bastam.


(Então, o que é que basta?)


Umas tropeçam entre si, 

Caindo no chão duro e frio da consciência.

Fica tudo por dizer.

Resta tudo para pensar.


Outras ficam presas em mistérios e fantasias,

De te ou nos ter.


Vivemos os inícios fugazes,

Morremos nos finais felizes,

Sobrevivemos durante...



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

diamante bruto

Fica sempre tanto por dizer...

Mesmo quando me sorris

Mesmo quando me abraças

Mesmo quando me agarras


As respirações entrecruzam-se numa melodia orquestral. 

As palavras são degoladas por uma mudez racional.

O calor da emoção é devorado por palavras gélidas.


Os sentimentos desvanecem...


Só me restam memórias.

Não tive tempo para glórias.

E isso é avassalador.

É dor.

É amor.



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

O veludo das rosas brancas

Hoje acordei sem perceber

Onde estou

Quem sou

Para onde vou.

Prostrada no leito,

Olho pro tecto,

Ouço o silêncio,

O vazio emergiu.

Ocupou os pensamentos,

Elevou os tormentos.

Eles estavam tão bem escondidos...

Camuflados com um manto de pétalas de rosas brancas,

Cuja superfície era de veludo e de paz.

Ainda me lembro das manhãs invadidas pela luz das rosas brancas...


Tormentos, vão-se embora!

Deixem as rosas serem rosas.

Deixem a luz brilhar.

Deixem-me ser. 

Ser feliz!

Eu ainda não quero morrer.


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

(sem título)

Ando atrás do sentido das coisas.

Ando, caminho, corro, corro, corro.

Elas não (me) dizem nada.

Não (me) falam.

Não (me) mostram.

Não (me) gritam.

Não (se) explicam.

Não (se) mexem.

Serenas, impávidas, imóveis, permanecem.

Num monólogo ruminante, indiferente, decadente.

Eu fico doente.

Dói-me a cabeça,

De pensar,

De tentar acreditar,

Nas coisas.

Na vida.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

(não) ser poeta

Ser poeta

É ser profeta.

É ser e não ser.


É correr atrás do Graal

Sem subir no pedestal.

É ser cavaleiro andante

Ou então descer ao Inferno de Dante.

É ser Tristão sem Isolda

Ou Romeu sem Julieta.

É ser amor, fogo e paixão

Ou ódio, gelo e morte.


É ser tudo ou nada

E nunca ser nada,

Mas sempre ter tudo.