Some-te do meu alcance,
Esconde-te do tédio terreno,
Desvenda a claridade divida e sagrada.
Quero deslindar os novelos de sombras
Que se escondem no infinito junco.
Ventos te soprem e te levem!
Estou pronta para olhar o sol de frente.
Porque não relembrar o povo? O povo que trabalha, que paga os impostos e que sobrevive na "nação valente, imortal". De segunda a sexta ou 24/7, lá vai o povo para a labuta! Resignado a um quotidiano repetitivo e fatal, de semblante pesado e infeliz, lá vai o povo para a labuta! Lá vai... Não tem outra escolha. E mesmo, se tivesse, não seria para o povo. Seria para a elite, que vive na sua confortável bolha onírica, enquanto que o povo é obrigado a sujar-se na lama, sem, muitas vezes, ter água para se limpar. Porque não um pouco de humildade, de reconhecimento e de dignidade? Não faria mal a ninguém. No final do dia, somos todos humanos que precisamos de dormir, sem sabermos se iremos acordar na manhã seguinte.
Estar só é estar com pensamentos. É olhar para eles como quem observa o Marão de frente, no infinito das suas sombras, que se esfumam em eufemismos sagrados. Espectros efémeros que deslumbram os sentidos e turvam a providência. Chama filosofal que inflama os laivos da existência, restando apenas a alma e a saudade.
O Alentejo é uma planície ao pôr-do-sol. O seu corpo sensual pousa levemente nas oliveiras, como uma pena de mel. Os ventos abanam os seus ramos e, com eles, dançam um slow na vacuidade da existência. Dançam, sorriem e brincam. Escondem-se num jogo carnavalesco e desigual. Escondem-se sempre. São velozes demais para serem apanhados. Como se corressem atrás da felicidade que, também, se esconde e nunca se descobre. Mascara-se nas entrelinhas da vida e nas intermitências da morte. Transmuta-se em raios de luz efémera que nos cegam e nos deixam desamparados nos fossos perenes do nosso âmago.
De que me vale possuir pensamentos, se nunca os vou ver nem tocar? A génese da sua imaterialidade torna-os fugazes e incorpóreos. É como se não existissem, e se não existem, para quê dar-lhes vida? Uma vida artificial, representada pelo filtro da mente. Uma deturpação da realidade objetiva e vigente. Uma ilusão criada e vivida por quem os cria, os pensa e os sente. Uma desilusão sofrida. Um nada e um tudo que será apenas e somente para o emissor. O peso da individualidade carece de leveza e, para isso, a mente necessita de se tornar amorfa. O olhar só tem de ver aquilo que está à sua frente e conjugar o modo verbal presente, sem observações nem contemplações, muito menos, interpretações. Tudo isso é erróneo. Tudo isso é falacioso e pertence a um mundo onírico e irreal. Um outro mundo, onde ninguém vive.