quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Ataque de Arte

Expôr qualquer tipo de Arte é trazer espectros interiores dos escombros à tona, até que sucumbam ao escárnio do ridículo. É arrancar o coração e, de mãos ensanguentadas, mostrar ao Mundo veias, ventrículos, artérias, aortas. É inspirar todo o ar puro e expirar gritos de desespero. É despertar para o tumulto da vida e, depois, perecer num sono profundo. É um ato de sobrevivência ou de demência, acompanhado de uma sonata de coragem. É e sempre será tudo ou nada, porque toda a Arte, tal como a vida, tem um princípio, meio e fim.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

(re)conexão

Existem momentos de (re)conexão com a vida exterior que abrem alas para a luz da clarividência interior. Esses momentos sentidos, apreendidos e aprofundados no corpo e na alma funcionam como motor de busca, transformando o simples facto de estar sentada na relva a ver o pôr-do-sol (aqui e agora), o suficiente para perceber a ínfima felicidade e apaziguamento que sinto. A terra abraça-me carinhosamente e sussurra-me suspiros de brisa. Sei que futuras intempéries virão e que tudo é efémero, mas, enquanto eu durar, irei ser a heroína da minha ventura.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

cegueira perpétua

Tu foste um sonho ténue que trespassou a minha bruma densa, lodosa, pesada, poeirenta, cósmica... repleta de versos que salivam estrofes cantadas em castelos de areia. A brisa do mar ainda perfuma as flores murchas daquele ramo que me deste. Lembras? A lua ia alta e as palavras mudas desnudavam e acariciavam os nossos corpos inocentes. Quando o dia raiou, num solavanco impiedoso, o sol cegou os meus olhos e os teus. Nunca mais nos vimos.

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

o desencontro

Hoje, à porta do cinema, esperei por ti. Esperei por ti, por nós e pelo filme. O filme chegou. Chegou a tempo e horas. Aliás, estreou! Ao contrário de ti ou de nós. Tu não chegaste nem a tempo nem a horas. Nem por nós, nem pelo filme. Simplesmente não chegaste. E nunca vais chegar. 

Como poderia eu sequer imaginar que ainda poderias chegar? 

O intervalo entre o tempo de partida e chegada é deveras o mais longo e delirante de sempre. Chama-se tempo de espera. Um espaço, onde os clichês bailam à flor da pele e, por momentos, fizeram-me acreditar que se chegasses naquele preciso momento, mesmo um segundo antes da sessão começar, serias o homem da minha vida. 

quarta-feira, 16 de junho de 2021

semtido

Eu sei como é quando não se é
e sei como é quando se é.
Nada melhor do que conjugar o ser ou estar no presente,
todos os outros tempos verbais conspurcam as pessoas no singular ou no plural.
A dicotomia serve-se bem fria,
sem entradas nem copos de vinho para entorpecer.
Nada dura para sempre (nem eu quero)!
Por mim, acabava tudo já,
tal como este pseudo-poema, 
que brota sem qualquer sentido...
Mas o que é a poesia senão o encontrar sentido na falta de?

segunda-feira, 24 de maio de 2021

brumas

Oh, dia de névoa!
Some-te do meu alcance,
Esconde-te do tédio terreno,
Desvenda a claridade divida e sagrada.
Quero deslindar os novelos de sombras
Que se escondem no infinito junco.

Ventos te soprem e te levem!
Estou pronta para olhar o sol de frente.

sábado, 22 de maio de 2021

Para quê?

Para quê poesias e crepúsculos?
Para quê paixões e promessas?
Para quê pensamentos e contemplações?
Para quê? Para quem? Porquê?
A nova idade dos porquês irrompeu pela aurora boreal.
Abram as garrafas! Chamem Dionísio!
Vénus morreu e o banquete insano alvoreceu agora mesmo.